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Caminhada: Espanha - Peregrinação a Santiago de Compostela



2011 - de 24/08 a 02/10

O que chamamos de Caminho de Santiago de Compostela é, na verdade, um conjunto de rotas com destino ao o túmulo do Apóstolo de Jesus Cristo, Tiago Maior que se encontra na Catedral da cidade de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. Aqui relatamos nossa experiência em caminhar por mais de 800 quilômetros nessa milenar rota.

Roteiro percorrido à pé. Depois que um pastor de ovelhas chamado Pelaio, guiado por uma constelação de estrelas, nos idos de 813, descobriu os restos mortais do apóstolo, foi edificada no local uma capela e os europeus começaram a peregrinar em direção ao túmulo.

As peregrinações foram crescendo com as pessoas saindo de suas casas e, por onde trilhava a maioria dos peregrinos surgiram rotas, sendo a principal a denominada de Caminho Francês, que parte de Saint-Jean-Pied-de-Port, nos Pirineus franceses.

Para muitos europeus ainda é comum saírem de suas casas já caminhando. Seguem pelas rotas pré existentes por conveniência da estrutura de apoio: albergues, locais para refeição e sinalização indicativa por meio de setas. Alguns desses peregrinos retornam para suas casas caminhando.

A maior parte das pessoas que trilha alguns dos caminhos que levam a Santiago de Compostela começa a fazê-lo bem antes de iniciar a caminhada física ou da viagem de ida ao ponto de partida. A decisão de reservar uma determinada quantidade de dias de suas vidas para preparar-se e para percorrer todos aqueles quilômetros já faz parte do caminho e são de importância fundamental.

É nessa fase que a mente é lapidada sobre os diversos aspectos que envolvem essa empreitada tão relevante e, para que não seja prejudicada é necessário tratar da questão financeira, da preparação do corpo e da mente, decidir sobre a época do ano mais propícia,  assim como sobre os equipamentos e vestuário a levar. É importe buscar antecipadamente informações sobre os locais que serão visitados.

Leia nosso relato da experiência que vivemos em 33 dias caminhando por onde as setas nos guiavam ....



A Clarice já havia percorrido o Caminho Francês no ano de 2007 juntamente com alguns amigos da ACACSC (Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela).

No ano de 2011 mais de 183 mil pessoas percorreram alguma das rotas do Caminho de Santiago. Dessas, mais de 153 mil o fez à pé e 19.416 iniciaram em Saint-Jean-Pied-de-Port. E foi justamente nesse ano que a Clarice e eu fomos juntos fazer o Caminho francês de Santiago de Compostela.

Fizemos todo o planejamento sozinhos, contando com a experiência obtida por frequentarmos a  ACACSC. Adquirimos as passagens diretamente da empresa aérea sem a intermediação de agências de turismo.

Financeiramente, sabíamos que no caminho o peregrino gasta cerca de  €  30,00 por dia (pernoite, lanche e uma refeição). Levamos valores extras para eventuais emergências e despesas extras.

Quanto a preparação física, além do fato de que já fazíamos caminhadas longas dentro da programação da ACACSC e frequentávamos academia, passamos a fazer, sob a orientação dos professores, exercícios voltados às partes do corpo que seriam mais exigidas; pernas, ombros e coluna.

Escolhemos o final do verão, entrada do outono europeu para efetuarmos a caminhada pelo fato de normalmente ser uma época de menos chuvas e de frutas. Saímos de Florianópolis no dia 24/08/2011 para iniciar a caminhada no dia 27.

Em junho havíamos percorrido o Caminho da Ilha já com a mochila preparada da mesma forma que a levaríamos para a Espanha, o que já serviu como preparação (veja postagem específica neste blog). As botas já estavam amaciadas.

A Espanha foi inicialmente habitada pelo povo Ibero e em algumas regiões os Visigodos, os Fenícios, os Gregos e os Cartágenos também ocuparam territórios. Já no início da era cristã, os romanos dominaram seu território por cinco séculos, quando os mouros tomaram a Espanha e a dominaram por cerca de sete séculos, lançando suas influências. Finalmente os cristãos expulsaram definitivamente os muçulmanos. Essas sucessões de dominações deixaram marcas que veríamos por todo o caminho.

Administrativamente a Espanha é dividida em Comunidades Autônomas que se subdividem em Províncias, nas quais se agrupam as cidades e vilas. Durante nossa caminhada passaríamos por quatro Comunidades Autônomas: Navarra, La Rioja, Castilla y León e Galicia.

Nossa viagem aérea foi pela Ibéria, saindo de Florianópolis com destino a Pamplona e conexões no Rio de Janeiro e Madri. Despachamos nossas mochilas em Florianópolis diretamente para Pamplona.

Despedida em Florianópolis No aeroporto de Pamplona tomamos um táxi cuja despesa dividimos com uma eslovena que veio de Madri no mesmo voo. O custo total do táxi foi de  €  90,00. Havia a opção de irmos até a rodoviária local e pegar uma van com custo mais baixo.

A saída de Florianópolis havia se dado num dia de muito frio e chuva e a chegada a Saint-Jean-Pied-de-Port, no dia 25/08/2011, 23 horas depois, com sol e calor.

Tendo em vista que em 2007 a passagem da Clarice por Saint-Jean-Pied-de-Port  fora muito rápida, decidimos reservar um dia a mais para conhecer a cidade, aproveitando também para fazer a adaptação ao fuso horário. Foi uma excelente decisão, visto que é uma cidade com uma área medieval bem preservada, linda e aconchegante.

Conhecemos um pouco da cidade na tarde do primeiro dia e nos hospedamos em um hotel. No segundo dia fomos até o escritório de acolhida dos peregrinos onde obtivemos informações e planilhas do caminho, o carimbo em nossas credenciais e providenciamos nossa vaga no albergue municipal.

 
 

Naquele dia compramos capas novas e cajados numa loja instalada numa edificação datada de 1510. O Brasil mal havia sido descoberto quando ela foi construída.  É muito interessante ouvir o sotaque francês por todo lado.

No período da tarde visitamos outros pontos da cidade, passeamos no trenzinho, fizemos um lanche e nos recolhemos cedo ao albergue para já irmos nos acostumando aos horários dos peregrinos. Dormir às 20h30m lá era o mesmo que ir para a cama no Brasil às 15h30m, o organismo ainda estranhava. Em nosso alojamento conseguimos identificar um holandês, um coreano, um japonês e vários franceses.


Começava o caminho.

OBS: As distâncias citadas abaixo referem-se ao deslocamento entre as cidades e não computam os deslocamentos dentro das cidades nas visitas aos pontos de interesse e para alimentação.

1º Dia - 27/08/2.011 [sábado] - 24,7 km no dia.
Saint-Jean-Pied-de-Port [França] - Roncesvalles [Espanha - Navarra]

Nosso primeiro dia no caminho.


Arrumamos a mochila e fomos ao refeitório do albergue onde Mme. Janinne aguardava os peregrinos com café pronto. Serviu-nos pães franceses fatiados e café em uma tijela (boll) que é o costume na França. Sobre a mesa havia manteiga, mel e doce de laranja.

Deixamos o albergue pouco antes da sete horas, entregando a Mme Janinne nossas capas usadas para que doasse a quem necessitasse. Descemos a Rue de La Citadelle e cruzamos o Portal da Espanha na grande muralha medieval com o dia ainda escuro. Foram nossos primeiros passos no Chemin de St. Jacques , que é como os franceses chamam o Caminho de Santiago.



Após passar pelo Portal o caminho já se inicia em subidas nos Pirineus e começou a sobrar roupa. Paramos para tirar casacos. Neste momento os sinos da capela tocaram sete badaladas e o céu iniciava a clarear. Quanto mais andávamos mais subíamos na desafiante cordilheira. Cada passo dado significava um a menos a vencer. Neste momento era impossível não pensar nos quase oitocentos quilômetros que tínhamos pela frente.

Junto conosco, em Orrison chegaram os primeiros pingos de chuva. Foi o tempo de entrar no bar para nos protegermos antes da chuva aumentar. Fizemos um lanche e seguimos.

Poucos passos adiante a chuva recomeçou e tivemos que colocar as capas. Já ali, começamos a entender que os peregrinos trocam de posição sempre. Algumas pessoas pelas quais havíamos passado anteriormente, nos passavam quando estávamos parados para colocar as capas ou para tirar fotos.

Mais acima encontramos vários rebanhos de ovelhas, cada grupo com uma pintura colorida no lombo, com seus sinos quebrando o silêncio da montanha.

Neste primeiro dia, apesar de árduo, o caminho é muito bonito. Há uma parte de estrada e outra de floresta quando se passa na divisa entre França e Espanha.


Ainda na floresta, na descida, faltando aproximadamente três quilômetros para chegarmos a Roncesvalles a Clarice escorregou e ao cair apoiou-se no braço esquerdo e sentiu o pulso. Por sorte não quebrou, mas inchou e ficou dolorido.

Chegamos às 17 horas na Real Colegiata de Santa María de Roncesvalles , com seu albergue inaugurado em março daquele ano, contando com ótimas instalações, inclusive uma cozinha para uso dos peregrinos, um ambiente com máquinas para venda de lanches e bebidas e um enorme refeitório.

O albergue possui acomodação para 183 peregrinos. Os banheiros são de uso misto e a privacidade só se consegue nos boxes dos sanitários ou das duchas.

Participamos da missa das 19 horas onde os padres chamam os peregrinos para se apresentarem no corredor central, junto ao altar e fazem uma benção a todos para que tenham uma boa jornada.

2º Dia - 28/08/2.011 [domingo] - 20,7 km no dia.  45,4 km acumulados.
Roncesvalles [Navarra] - Zubiri [Navarra]

Fizemos o lanche no albergue e começamos a caminhar às 6h45m numa manhã fria.

O caminho inicia-se em um bosque numa trilha ladeada por pés de amoras silvestres que começamos a provar ali.


Cruzamos por lindos vilarejos. A Navarra tem uma arquitetura muito interessante, típica e muito bem cuidada. São comunidades com muita organização. Há feno recolhido nos campos nesta época do ano para abastecer o inverno que é rigoroso. As casas já possuem um bom estoque de lenha empilhadas no lado de fora.

Caminhando ali, ficou claro para mim que o Caminho de Santiago é de congregação. Há pessoas de todos os tipos, origens e línguas unidas num fim comum. Todos se esforçam para buscar a compreensão dos demais num clima de despojamento e respeito.

Ponte com possibilidade de travessia quando de enchente A lembrança de nossa filha Marina era uma constante em nossas mentes. Estávamos o tempo todo imaginando o que ela estaria fazendo a cada momento. Eram cinco horas de defasagem no fuso horário. Assim, quando começávamos a caminhar, normalmente por volta das 6h30m, no Brasil era 1h30m. Daí imaginávamos ela dormindo e essa era uma imagem vívida em nossa mente, fácil de reproduzir. Fazíamos nossa oração por ela, pedindo a proteção de seu Anjo da Guarda. Isto ocorreria todos os dias.

Por ser domingo o movimento de peregrinos era grande porque os Espanhóis e franceses têm o hábito de fazer trechos do Caminho de Santiago nos finais de semana, mas a caminhada foi tranquila. A Clarice ainda sentia dor no pulso.

O albergue municipal de Zubiri está instalado em uma antiga escola e possui amplo pátio com mesas para lanchar ou travar conversas com outros peregrinos.

Roupas foram lavadas e penduradas no varal existente no pátio.

Experimentei pela primeira vez o Menu do Peregrino, refeição disponível em todo o caminho e que é composta de um prato de entrada (escolhido dentre várias opções), mais um prato principal (também escolhido dentre várias opções), pão, sobremesa e vinho ou água para acompanhar. Nossa escolha foi sopa de ervilha, carne ensopada, sorvete e caña (chopp), pelo que pagamos  € 21,50 o casal.

Antes de nos recolhermos ao albergue, no início da noite, fizemos um lanche de bocadillo (sanduiche) com chorizo (linguiça fina), na barra (balcão) de um bar, hábito comum entre os espanhóis.

3º Dia - 29/08/2.011 [segunda] - 20,2 km no dia. 65,6 km acumulados.
Zubiri [Navarra] - Pamplona [Navarra]

Acordamos bem cedo. Os banheiros e a cozinha ficavam numa edificação separada pelo pátio.  lanchamos café solúvel com um pedaço de rocambole que havíamos adquirido na véspera.

Saímos quando ainda estava escuro porque assim antecipávamos a chegada fugindo do sol da tarde.

Iluminávamos o caminho com nossas lanternas. Próximo a nós caminhavam duas paulistas, Ana e Carol, cada uma em seu rítmo.

O caminho deste dia era feito de bosques, o terreno árido de uma fábrica de cimentos e mais bosques, além de vários povoados com a mesma bela arquitetura.

Comemos muita amora silvestre e vi, pela primeira vez, um pé de nozes.

Apesar de ser segunda-feira ainda havia muitos peregrinos no caminho. Eram casais, famílias, amigos e pessoas sozinhas. Havia duas famílias que chamaram nossa atenção. Numa delas as mulheres adultas estavam vestidas com o uniforme do Barça e uma moça caminhava ouvindo música pop num amplificador de iPod instalado na lateral de sua mochila. A outra família era composta pelo casal e duas crianças. Pareciam escoteiros.



Encontramos pela segunda vez um casal de velhinhos que a gente julgava que não chegariam no albergue, mas ao final da tarde lá estavam eles.

Nos primeiros dias ainda impressionava ver as pessoas peregrinando, vindas de todas as partes do mundo para trilhar esse caminho. Em cada cabeça uma motivação, mas a meta era a mesma, o sepulcro do Apóstolo São Tiago Maior na Catedral de Santiago de Compostela.

Pamplona A chegada em Pamplona se dá por meio de uma ponte levadiça num paredão de pedras no centro antigo. Sentimo-nos chegando numa aldeia medieval. Ficamos no albergue Jesus e Maria que dispunha de mais de cem leitos e, mesmo assim, vimos algumas pessoas deixando de encontrar vagas e tendo de buscar outros albergues na cidade. Este albergue está situado no centro medieval da cidade com ruas estreitas e edificações dos dois lados. Muito bonito, remetendo-nos a uma época passada.

Pamplona é a capital da Comunidade Autônoma de Navarra.

Visitamos a Igreja da Virgem do Caminho que é belíssima e que tem em seu piso placas de madeira de carvalho que são as tampas de túmulos. Os altares são riquíssimos e com detalhes em dourado.


Provavelmente por ser uma cidade com várias universidades, chamou-nos à atenção a grande quantidade de gente jovem e casais novos com crianças na primeira infância em Pamplona.

Aproveitamos bem a tarde para visitar todo o centro. Peregrino é assim, caminha de uma cidade a outra e quando chega sai para caminhar para conhecer a cidade. Impressionou-nos a diversidade de tapas e pinchos expostos nos balcões dos bares.

Recolhemo-nos cedo e, já deitado às 21h45 podia ver pela janela que o dia começava a escurecer. No dia seguinte levantaríamos cedo novamente.

4º Dia - 30/08/2.011 [Terça]  - 27 km no dia. 92,6 km acumulados.
Pamplona [Navarra]  - Puente La Reina [Navarra]

Saímos às 6h40m. A cidade medieval com as luzes amareladas dos postes imitando a tonalidade das lamparinas antigas tingia a cidade com um ar de mistério. Nossos passos e o cutucar dos cajados no piso complementavam a cena. Mais ao longe os passos e toques de cajados de outros peregrinos ecoavam abafados no silêncio da cidade.

Após sairmos da cidade atravessamos campos de girassóis que já estavam secos, aguardando a colheita.



Por volta das 10 horas iniciamos a subida ao Alto do Perdão. O sol castigava e não havia sombras. Lá em cima paramos junto ao monumento ao peregrino, elaborado em chapas de ferro recortadas na silhueta de peregrinos caminhando. Paramos ali para comer uma fruta antes de seguir.










Após a lenta descida num perigoso declive com muitos pedregulhos; caminhamos, almoçamos e provamos amêndoas por nós colhidas no caminho.










Esticando o caminho em mais ou menos 4 quilômetros, ainda sob sol muito forte, passamos por Eunate que fica numa variante do caminho. Ali visitamos a Igreja de Santa Maria de Eunate, uma edificação românica, com planta octogonal, construída na segunda metade do séc. XII para servir como templo funerário aos peregrinos e que tem sido para muitos o ponto mais místico do caminho. Quando intacta possuía 100 portas.



Nestes primeiros dias nossa mente ainda estava muito ligada ao início do caminho, ao quanto percorrêramos. Poucos dias depois descobriríamos que já passaríamos a pensar no destino, a Catedral de Santiago de Compostela. Nossa meta.

Passamos por Obanos antes de chegar a Puente La Reina.

Após o banho fomos conhecer a mais famosa ponte do caminho, uma ponte medieval construída sobre arcos que refletidos na água do rio formam círculos perfeitos.


A cidade de Puente La Reina também é conhecida pelo fato de ser a junção das duas principais rotas do Caminho de Santiago, o caminho Francês e o Aragonês.

5º Dia - 31/08/2.011 [Quarta]  - 22,2 km no dia. 114,8 km acumulados.
Puente La Reina [Navarra]  - Estella [Navarra]

Mais uma vez saímos bem cedo, antes de o dia clarear. À nossa frente os fachos da luz de nossas lanternas indicavam o caminho.

Para se perder por aqui a pessoa precisa estar muito distraída porque há indicação do caminho por todo lado. Se seguir as setas não fosse suficiente, bastaria seguir a rota das amoras silvestres. Estávamos no quinto dia e elas margeando o caminho o tempo todo.

Apesar de algumas nuvens nos protegerem do calor do sol, o mormaço parecia querer nos cozinhar. O filtro solar fator 30 era pouco e o trajeto deste dia oferecia pouca sombra de árvores.


Passamos por vários vinhedos às margens do caminho. Não havia cercas ou outro tipo de proteção e mesmo assim todos respeitavam as plantações como propriedades alheias. É interessante perceber que durante a caminhada quase não se vê as pessoas trabalhando nas propriedades.

Em Mañeru um senhor indicou a placa de uma rua, a  Calle Forzosa  indicando para que a fotografássemos e explicou que a rua tomou este nome porque era o trajeto para o cemitério e exigia "força" para vencê-la. Quando estávamos saindo desta cidade um cãozinho nos acompanhou até o vilarejo seguinte onde outro senhor o reteve e disse que ele já era conhecido por acompanhar os peregrinos, o que obrigava seu dono a vir nos finais de tarde buscá-lo.

Passamos por pés de nozes, figos, maçãs, azeitonas, castanhas portuguesas, peras e muitos outros.

Os peregrinos com quem vamos nos encontrando desde o começo da caminhada já passam a se reconhecer e a cumprimentar de forma diferente do simples buen camino  que é a expressão dita por todos que passam pelos peregrinos. Em todo o trajeto do caminho há muito respeito com os peregrinos.

Chegamos a Estella por volta da 15 horas, instalamo-nos no albergue, tomamos banho e saímos para passear. Nessa hora as cidades param, tudo é fechado por conta da siesta - até os bares e as farmácias.

Na mesa da cozinha do albergue, onde eu fazia algumas anotações em meu bloco de rascunho, via num lado da cozinha dois orientais preparando uma refeição, partindo cebola tomate e pimentão. Sentada à mesa uma moça loira, alemã comendo caneloni ao sugo (comprado pronto e aquecido no microondas). Ao lado dela um americano comendo um sanduiche com coca-cola ligth. Mais ao lado, um senhor que me pareceu espanhol estava chupando laranja. No outro extremo um senhor e uma moça conversavam em francês enquanto preparavam massa com azeitonas e presunto. Cada um que acabava a refeição se levantava e lavava sua louça.

A Clarice estava no quintal aos fundos do albergue conversando com as brasileiras Carol e Ana. Ela recebeu a atenção de Javier, um espanhol que tem conhecimentos de fisioterapia e está fazendo o caminho pela quarta vez. Ele fez massagem e curativos para a tendinite que ela tem na perna.

6º dia - 01/09/2.011 [Quinta]  - 21,1 km no dia. 135,9 acumulados.
Estella [Navarra] - Los Arcos [Navarra]

Começou setembro.

Ainda no albergue, na movimentação dos peregrinos se arrumando, o Javier fez um atendimento à tendinite da Clarice e com duas tiras de esparadrapo fez um tracionamento na perna esquerda, impedindo que durante a caminhada ela efetuasse o movimento com a ponta do pé para baixo.

Partimos às 6h30m com previsão de chuva e céu escuro, caminhando pelas medievais ruas de Los Arcos ouvindo nossos passos ecoarem no silêncio da madrugada.

Passamos então pela parte moderna da cidade e na saída do centro urbano já víamos chuva nas montanhas ao longe e o vento trazia nuvens negras sobre nós, o que nos levou a colocar as calças de chuva.

Aproximadamente três quilômetros depois de sairmos da cidade passamos por Irache, onde tem uma vinícola que mantém um portal com uma torneira com água e outra com vinho à disposição dos peregrinos. Porém, como ainda estava muito cedo a torneira de vinho ainda não estava funcionando.

Apesar de estar nublado e ventando, estava calor. Com o passar do tempo o clima mudou e o sol se impôs mais uma vez e por ser o trajeto de muitas subidas tivemos que retirar as calças de chuva.

Passamos por muitos vinhedos e pequenos vilarejos.



Na parte final do trajeto deste dia o caminho é descampado e o sol estava inclemente.

A tendinite da Clarice piorou fazendo com que ela caminhasse os últimos quilômetros sob duras penas, passo-a-passo, fazendo uso de dois cajados (o dela e o meu).

Depois de nos instalarmos no albergue municipal retornamos ao centro da cidade e fomos almoçar em um restaurante com mesas dispostas numa praça em frente a igreja, sob sombrinhas.

Retornamos ao albergue para o banho e lavação de roupas. Mais tarde saímos para fazer lanche e comprar mantimentos para o café da manhã do dia seguinte. Aproveitamos para visitar a riquíssima igreja e passeamos pelas estreitas ruas.

Ao final da tarde (na verdade já noite, mas ainda claro) comemos melocoton (pêssego) no pátio do albergue enquanto conversávamos com a Ana e a Carol.

7º dia - 02/09/2.011 [Sexta]  - 18 km no dia. 153,9 km acumulados.
Los Arcos [Navarra] - Viana [Navarra]

Os guias do Caminho normalmente estabelecem para este dia um percurso de 28 km, até Logroño. Tendo em vista que a Clarice ainda sentia muito a tendinite, decidimos caminhar somente 19 km, parando em Viana, a última cidade da Navarra.

Saímos cedo, 6h15m, ainda escuro, feito vagalumes com a lanterna na cabeça iluminando nosso caminho. Antecipando a saída fugíamos do sol escaldante que vinha se apresentando todos os dias até aqui.

Caminhávamos devagar para não forçar a tendinite da Clarice. No trajeto paguei a água mineral mais cara do caminho até aqui. Custou  € 1.00 a garrafinha de 330 ml, justamente num bar chamado Brasília. Descobrimos depois que um quilômetro adiante havia uma vila com muitos bares com preços bem mais honestos.



Faltavam 15 minutos para as 13 horas quando entramos em Viana que se mostrou apaixonante. A principal rua da cidade, repleta de bares e restaurantes com mesas na rua estava tomada pelos habitantes e turistas num clima de alegria tamanha que chegamos a pensar que fosse dia de festa. Descobrimos depois que é sempre assim. os espanhóis gostam de sair e ir a bares e restaurantes celebrar a vida.

Depois de passar no albergue para reservar as acomodações saímos para almoçar. Foi minha primeira paella em terras espanholas, acompanhada do melhor pão que comi na Espanha. Na mesa ao lado um grupo de cariocas também almoçava. No grupo estava Terezita que já havia percorrido o Caminho da Ilha, em Florianópolis.

Após o almoço retornamos ao albergue para o banho, lavação de roupa e siesta.

Mais tarde saímos para descobrir Viana, visitando sua igreja com obras artísticas inestimáveis. No final da tarde as ruas já estavam cheias de novo com as pessoas conversando, comendo, tomando cerveja, vinho ou sangria. Surpreende o fato de que não são só jovens. Os idosos se arrumam como se fossem a uma festa e vão para os bares e restaurantes.

No albergue soubemos que no dia seguinte a família torcedora do Barça e a família de escoteiros fariam seu último percurso do caminho da temporada. Depois de uma semana caminhando já reconhecíamos muitos caminhantes e os apelidávamos utilizando alguma característica marcante para identificá-los e facilitar a menção a cada um nas conversas.

Nessa noite dormimos pela primeira e única vez em um triliche.

Viana. Uma cidade para voltar um dia.

8º dia - 03/09/2.011 [Sábado]  - 10,9 km no dia. 164,8 km acumulados.
Viana [Navarra] - Logroño [La Rioja]

Choveu bastante por toda a noite. Pela manhã garoava.

Às 6h30, já prontos para sair desabou uma chuvarada. Saímos mesmo assim, vestindo calça de chuva e capa. A iluminação das lanternas não se mostrava suficiente para iluminar o caminho e nos mostrar as poças d'água.

Caminhamos o tempo todo sob chuva. Só nos demos conta que já estávamos na Comunidade Autônoma de La Rioja quando já estávamos em Logroño , sua capital.


Chegamos a Logroño às 9 horas e a chuva não parara nenhum momento. A Clarice ainda sentia dores na perna e, assim, não tinha como seguirmos. Optamos por pernoitar ali e aguardamos a abertura do albergue que se daria às 12 horas. Tentamos nos proteger numa pequena marquise. Enquanto estávamos ali conhecemos Tereza Cristina, paulista de Jundiaí que estava fazendo o caminho sozinha.

No momento da abertura do albergue o hospitaleiro que nos vira ali em frente desde cedo nos obrigou a ficar descalços e a lavar as botas num tanque que ficava na rua, na chuva, passando todos os outros peregrinos na nossa frente. Não conseguimos entender o porquê de tamanha estupidez. Nem nossa argumentação sobre a tendinite da Clarice mudou sua postura.

Tínhamos intenção de ir a um posto de saúde, mas os passaportes de todos os peregrinos foram retidos na recepção.

Depois de instalados tentei conseguir com o hospitaleiro algum jornal velho ( periódico viejo ) para colocar nas botas para secá-las, mas o mal educado hospitaleiro (tinha mais a postura de um carcereiro [" carcelero "]) levantou os olhos do computador, bufou e disse que não tinha nenhum, apesar de ao seu lado haver uma enorme pilha de jornais. Fiquei me perguntando o porquê de Logroño ter uma pessoa nesse cargo se ela odeia peregrinos. A capital de La Rioja merecia um hospitaleiro mais bem preparado.

Quando saímos para almoçar junto com Tereza Cristina aproveitei para comprar um jornal. Presenciamos os convidados de duas cerimônias de casamento muito pitorescas. Depois do casamento os convidados ficaram nos restaurantes da praça para almoçar.

Meu Menu do Peregrino teve no primeiro prato paella mista , no segundo bacalhau a la Rioja , flan , de sobremesa e vinho para acompanhar. A Clarice escolheu   alubias rojas ( sopa de feijão vermelho), atum e sorvete.

No final da tarde todos os bares de Logroño estavam lotados pelos moradores aproveitando o sábado.

9º dia - 04/09/2.011 [Domingo]  - 19,1 km no dia. 183,9 km acumulados.
Logroño [La Rioja] - Ventosa [La Rioja]

Saímos muito aborrecidos de Logroño  pela péssima hospitalidade no albergue municipal. Tereza Cristina seguiu conosco. Também a Mary, uma americana de Ohio se juntou a nós na saída, mas sabíamos que seria por pouco tempo uma vez que ela caminhava rápido e nós tínhamos que fazer o ritmo que a tendinite da Clarice permitia.

A saída da cidade é muito interessante e se atravessa parques. Já no caminho até Navarrete passa-se praticamente só por propriedades rurais onde predomina o cultivo de uvas vinícolas.




Em Navarrete paramos para um lanche e fizemos uma visita na igreja. O ambiente estava na penumbra e olhávamos distraidamente seus altares quando as luzes começaram a se acender e a refletir os riquíssimos altares dourados. Atualmente a maioria das igrejas do caminho fica com uma iluminação de penumbra e possuem um sistema de iluminação extra que funciona a partir de um aparelho que acende uma iluminação especial para os pontos mais importantes quando se coloca uma moeda (normalmente  €  1) numa máquina caça níqueis. São tantas igrejas que a gente acaba não pagando essa importância em todas. Mas essa de Navarrete vale a pena pagar porque é muito bela. Parece um museu.

Percorremos mais uns seis quilômetros até Ventosa. Chegamos antes da abertura do albergue e tivemos que aguardar numa fila, sentados no chão bem ao estilo peregrino. Na entrada ficamos surpresos com a boa organização do albergue. Fomos recebidos num ambiente suavemente aromatizado com incenso e música de fundo. Os hospitaleiros de uma educação sem tamanho instruíram a todos que só se levantassem no dia seguinte depois que eles chamassem.

Saímos para almoçar num restaurante que nos surpreendeu positivamente. Vale cada centavo de euro pago nele. Ficamos numa mesa voltada para um quintal com grama, árvores e videiras carregadas com cachos caindo em frente à janela onde estávamos. A comida era muito boa e o vinho, servido em jarra e à vontade, também.

Após o almoço aproveitamos para conhecer a pequena vila e voltamos ao albergue para tomar banho, lavar as roupas e descansar.


10º dia - 05/09/2.011 [Segunda]  - 17,6 km no dia. 201,5 km acumulados.
Ventosa [La Rioja] - Azofra [La Rioja]

Acordamos ao som de cantos gregorianos vindos do aparelho de som dos hospitaleiros. Foi bem interessante.

Considerando que a Clarice não queria ficar um ou dois dias parada para tratar da tendinite, optamos por fazer trechos menores na esperança de que ela se curasse.

A caminhada foi fácil, ao lado de muitos vinhedos.

Passamos por Nágera rapidamente e não tivemos a oportunidade de visitar a igreja porque estava fechada.

Enquanto caminhávamos passou por nós um grupo de senhoras andando de bicicleta, todas vestidas com roupas e equipamentos adequados ao ciclismo. Não eram peregrinas.

Chegamos a Azofra pouco depois do meio-dia e nos instalamos no albergue municipal, muito bom e com hospitaleiros simpáticos. Este albergue não utiliza beliches são quartos com duas camas. Pela primeira vez no caminho a Clarice e eu ficamos sozinhos.

No restaurante onde fomos almoçar encontramos as ciclistas e a Clarice conversou com elas. Era um grupo de 25 turistas norueguesas, com idade entre 55 e 70 anos e estavam fazendo um circuito de uma semana. Uma lição de vida.

A tarde foi reservada para as rotinas de banho, lavação de roupas, anotações, descanso e a primeira visita à Internet usando os computadores normalmente existentes nos albergues que funcionam com moedas. São lentos e com teclado difícil de acertar acentuação. No albergue experimentamos também uma cadeira que faz massagens nos pés e pernas em troca de uma moeda.

Nessa viagem fizemos a opção de não levar telefone celular porque além de muito caros os serviços, queríamos nos sentir mais integrados ao caminho, o que se mostrou uma ótima decisão porque, quando queríamos, fazíamos contato com a família utilizando cartões telefônicos internacionais.

11º dia - 06/09/2.011 [Terça]  - 15,1 km no dia. 216,6 km acumulados.
Azofra [La Rioja] - Santo Domingo de La Calzada [La Rioja]

Dia de caminhada fácil sempre ladeando vinhas. O sol não chegou a incomodar porque chegamos cedo.

 

A satisfação de caminhar dia após dia atravessando um país é indescritível. Questionávamo-nos o quanto teríamos deixado de ver e sentir se estivéssemos viajando de carro ou outro meio de transporte.

Ter a consciência de que carregávamos junto a nós, na mochila presa às costas tudo o que precisávamos era o reforço de um aprendizado. Ali, despojados, éramos o que éramos na essência e não o que possuíamos.


O albergue de Santo Domingo de La Calzada é ótimo, recém reformado e contando com muitos serviços. Nos fundos do pátio fica um galinheiro onde estão os galos e galinhas que são usados junto ao altar da igreja nas celebrações, para representação da lenda que diz que; no séc. XIV um peregrino havia sido enforcado injustamente por uma acusação falsa, mas não morreu por intervenção de Santo Domingo que sabia de sua inocência. Por fim, acabou sendo absolvido por um juiz que estava almoçando e, ao receber dos pais do peregrino o pedido de perdão, duvidara do fato do jovem ainda estar vivo, dizendo: "eu o perdoarei quando este galo e esta galinha que estão no meu prato cantarem novamente". O galo e galinha  teriam cantado e o jovem foi libertado.

À tarde a Clarice e a Tereza foram atendidas por um fisioterapeuta. Ele recomendou continuar caminhando com o curativo de tracionamento realizado por Javier em Estella.

12º dia - 07/09/2.011 [Quarta]  - 23,4 km no dia. 240 km acumulados.
Santo Domingo de La Calzada [La Rioja] - Belorado [Castilla y León]

Este foi um dia de muito sol e pouca sombra. Caminhamos muito ao longo de estradas sem árvores.

Passando por Grañon aproveitamos para descansar um pouco.

Ainda passamos por Redecilla del Camino , Castildelgado e, depois de muito sol chegamos a Belorado .

  

 
 

Em cada cidade visitávamos as igrejas e o centro das vilas.

No albergue ficamos instalados em beliches num sótão. A cada etapa novas experiências.


13º dia - 08/09/2.011 [Quinta]  - 23,8 km no dia. 263,8 km acumulados.
Belorado [Castilla y León] - San Juan de Ortega [Castilla y León]

Apesar de termos enfrentado dias de muito calor e sol escaldante, as manhãs eram frias e sempre saíamos agasalhados.

Depois de um precário café da manhã no albergue, saímos.

A primeira vila que se passa é Tosantos . Fora da vila vimos a  Ermita de Nuestra Señora de la Peña , encravada num rochedo. O peregrino que passa distraído pode deixar de ver essa atração porque ela fica fora da rota, à direita de quem caminha, um pouco longe. Não fomos lá porque sabíamos que estaria fechada e teríamos que sair da rota.


No caminho há sempre muitos peregrinos. Nas longas vias se percebe bem os grupos que vão caminhando mais à frente. Tereza Cristina caminhava conosco.

Enfrentamos um trajeto difícil, principalmente nos últimos doze quilômetros. Há subidas e descidas com muitas pedras. Atravessa-se uma região de reflorestamento com pinheiros.


Depois de passar por Villambistia , fizemos uma pausa  para descanso e lanche em Villafranca Montes de Oca .

O albergue de San Juan de Ortega  foi o pior de todo o caminho. Com instalações antigas e descuidadas não dispunha de cozinha ou lavanderia. Os beliches são altos e sem escadas, com um enorme afundamento no centro (em todos os beliches) que me causou uma dor na coluna que perdurou por vários dias. A área para estender roupas era pequena e a Clarice teve que ir à praça para secar nossas roupas.

Comemos no Bar Marcela onde provamos a deliciosa morcilha de Burgos muito bem acompanhada de uma gelada cerveja. Ali não servem Menu do Peregrino, só PF (prato feito) e a quantidade deixa a desejar para quem caminhou um dia inteiro.

Achamos interessante observar o comportamento de Isaac, um jovem japonês que já víramos várias vezes no caminho. Ele normalmente ficava na mesma cidade que nós. Normalmente quando saíamos de um albergue ele ainda permanecia, mas depois de alguns quilômetros caminhando ele passava por nós e só o encontraríamos novamente no próximo albergue. Ele pediu a morcilha de Burgos e uma cerveja. Ao recebê-la passou todo o conteúdo para um copo e ficou algum tempo com a garrafa emborcada esperando que a última gota da garrafa saísse para não desperdiçar nada. A cada gole dado ele, que estava sozinho, balançava afirmativamente a cabeça e com os olhos semicerrados resmungava baixinho como se dissesse "bom, muito bom". Foi a última vez que o vimos.

14º dia - 09/09/2.011 [Sexta]  - 25,7 km no dia. 289,5 km acumulados.
San Juan de Ortega [Castilla y León] - Burgos [Castilla y León]

Saímos mais cedo do que nos outros dias, às 6 horas. As lanternas de cabeça nos guiavam. Com o passar do tempo o dia também acordava vindo se juntar a nós.

Paramos numa cidade mais à frente para fazer o lanche porque em San Juan de Ortega, na hora em que saímos, só havia a opção dos produtos vendidos em máquinas.

A Tereza saiu conosco, mas andou mais rápido e foi se distanciando e não a vimos mais.

Comemos ameixas colhidas no caminho.

Em Burgos entramos por  Villafría . A chegada em Burgos é muito cansativa porque a caminhada se faz vários quilômetros em área urbana.

Enquanto caminhávamos em direção ao centro antigo decidimos ficar em um hotel para nos recuperarmos da noite mal dormida em  San Juan de Ortega . Ficamos no Hotel Jacobeu, na  Calle San Juan , bem próximo da Catedral.

 
Depois e um bom banho saímos para almoçar na Praça Alonso numa mesa na calçada, apreciando o movimento dos habitantes se recolhendo para a siesta.

Depois do almoço visitamos a Catedral de Santa Maria de Burgos, de uma riqueza indescritível e, na qual, com a apresentação da Credencial do Peregrino, paga-se um valor reduzido de entrada, pagamos  €  2.50.

O fascínio começa em sua fachada com muitas esculturas e uma profusão de detalhes. Seu altar mor é ladeado de inúmeras capelas, cada uma mais interessante que a outra. É preciso ter tempo para apreciar cada detalhe, cada cor, saliência, sinal do tempo, enfim. A quantidade de obras de arte é maior que muitos museus. Nessa catedral encontra-se o túmulo de El Cid, herói ibérico, senhor da Espanha, um militar que viveu no século onze e lutou bravamente a serviço dos reis cristãos, derrotando os muçulmanos.

Depois passeamos mais um pouco pelo centro, tomamos um sorvete ao lado do Arco de Santa Maria e retornamos ao hotel para descansar.


15º dia - 10/09/2.011 [Sábado]  - 30,9 km no dia. 320,4 km acumulados.
Burgos [Castilla y León] - Hontanas [Castilla y León]

Hoje completava uma quinzena de dias no caminho. O pernoite no hotel foi confortável, mas quebrou o ritmo. Concluímos que o bom mesmo é ficar em albergues.

Saímos ainda escuro e encontramos nas medievais ruas do centro de Burgos os últimos boêmios da noite de sexta. Em nenhum momento nos sentimos ameaçados, apesar de caminharmos por ruas desertas. A recepcionista do hotel, uma brasileira, havia dito que se poderia caminhar pelas ruas de Burgos a qualquer hora da noite sem riscos.

A saída de Burgos, assim como a entrada, se faz por um longo trecho urbano. Quando deixamos as últimas edificações já estava clareando. Ao longe as inúmeras torres das usinas eólicas.

O trajeto se inicia plano em estradas ladeadas por amoreiras silvestres carregadas de frutos. Passamos por Tarjados e Rabé de las Calzadas , quando há uma mudança de ambiente e vamos encontrando subidas e descidas com muito pedregulho e nenhuma sombra. O boné estilo legionário que comprei em Saint-Jean-Pied-de-Port estava cumprindo bem sua função em proteger as orelhas e pescoço do sol rigoroso.

Em Hornillos del Camino quando paramos para um lanche, encontramos no bar os gaúchos de Caxias do Sul; Elias, Neiva e Salete.


Sentar numa sombra, desfazer-se do peso da mochila, tirar as botas, sacar um canivete, descascar uma fruta e saboreá-la seriam atividades que passariam despercebidas se realizadas no dia-a-dia, mas no caminho se reveste de uma aura mágica. Inexplicável.

Apesar de virmos vencendo distâncias maiores, a Clarice ainda não estava totalmente boa da tendinite. Caminhava com dois cajados superando a cada dia as dores que a atormentavam.

O sol aproveitou-se da paisagem árida para nos testar e caprichou no calor. Mas estávamos resolutos e seguimos até Hontanas onde nos hospedamos no Albergue Municipal. A Clarice lavou as roupas e as estendeu na rua, em frente ao albergue.

Ali nos encontramos novamente com Tereza Cristina e colocamos as novidades em dia.

A igreja estava fechada e aguardávamos sua abertura. No meio da tarde uma senhora passou por nós carregando um molhe de enormes chaves, seguindo em direção à igreja. Nós a seguimos e visitamos a construção antiga e simples.

  
16º dia - 11/09/2.011 [Domingo]  - 28,5 km no dia. 348,9 km acumulados.
Hontanas [Castilla y León] - Boadilla del Camino [Castilla y León]

Saímos bem cedo e quando passamos nas ruínas do Convento de San Antón ainda estava muito escuro o que nos impediu de apreciá-lo.


Amanhecia quando passamos por Castrojeriz com seu castelo em ruínas sobre o monte. Na vila o Bar La Taverna tinha uma bandeira do Brasil hasteada na fachada. Entramos e no interior do bar outras bandeiras do Brasil e de diversos estados brasileiros. Cédulas de dinheiro do mundo todo estavam penduradas nas paredes. Tomamos um café, conversamos com o proprietário, ganhamos dois biscoitos e retomamos nossa peregrinação.



Pouco depois dessa vila há uma subida importante e cansativa. No topo do morro há um abrigo para repouso dos peregrinos onde uma placa informava sobre um projeto de arborização do Caminho de Santiago na região de Burgos. Na verdade esse projeto envolve toda a Comunidade Autônoma de Castilla y León .

Descansados iniciamos a íngreme descida, hoje pavimentada. Quando a Clarice fez a peregrinação em 2007 essa descida ainda era feita de pedregulhos e muito perigosa.

O traçado do caminho se projetava até onde as vistas alcançavam.

Em Ítero de la Vega , ao atravessarmos a Ponte Fítero sobre o Rio Pisuerga , deixávamos para trás a Província de Burgos e entrávamos na Província de Palencia . As províncias são as subdivisões das Comunidades Autônomas.


Chegamos, depois a Boadilla del Caminho para pernoitar. Ficamos no Albergue do Dudu que dispõe de um aprazível quintal para o peregrino "largar" o corpo. Depois do almoço ficamos conversando com Elias, Neiva e Salete. Mais tarde demos um passeio rápido na vila que é muito pequena. Destaque para um pelourinho todo trabalhado, datado do século XV, no qual eram punidos aqueles que desobedeciam as leis o que também foi usado pela Inquisição.

17º dia - 12/09/2.011 [Segunda]  - 24,6 km no dia. 373,5 km acumulados.
Boadilla del Camino [Castilla y León] - Carrion de los Condes [Castilla y León]

Pelourinho em Boadilla del Camino Tivemos dificuldades em encontrar a sinalização do caminho na saída de Boadilla .

Em compensação tivemos um belo amanhecer no caminho. Enquanto a lua se recolhia no horizonte para descansar de seu expediente o sol trazia sua luz para nos mostrar a bela paisagem do local onde estávamos.
Passamos rapidamente por Frómista e a seguir o caminho se faz por sienda existente ao lado de uma carreteira (auto-estrada) onde os carros passam zunindo.

O sol fazia projetar no chão longilíneas sombras de nossos corpos que seguiam à frente como se fossem guias do caminho.

Mais à frente passamos por  Población de Campos . Na saída da cidade há dois caminhos. Buscamos informação sobre qual seria o original e por ele seguimos passando por Villovieco . Apesar de ser mais longo o preferimos por fazer parte da rota original. Junto conosco seguiu Gino, um italiano de Roma e com o qual conversamos.


Em Villalcazar de Sirga  fizemos uma pausa para lanche com produtos coloniais e descanso e depois mais siendas abarrotadas de pequenos mosquitos que nos atacavam em bandos. Mais alguns quilômetros e chegamos a Carrion de los Condes .

No albergue encontramos as cariocas (que encontráramos em Viana), o italiano e os gaúchos.

A Clarice participou de uma missa onde o padre pediu aos peregrinos que indicassem seu país de origem e deu uma benção especial.

18º dia - 13/09/2.011 [Terça]  - 26 km no dia. 399,5 km acumulados.
Carrion de los Condes [Castilla y León] - Terradillos de los Templarios [Castilla y León]

Depois de um lanche no albergue, feito com suprimentos que compráramos na véspera num supermercado, saímos. Os primeiros quilômetros de caminhada se fazem por estradas pavimentadas e, nestas ocasiões, tem que se dar atenção ao trânsito de veículos. Caminhamos vendo a noite ceder lugar ao dia.

Utilizamos os abrigos construídos para a pausa dos peregrinos para fazer o lanche. Em todos os lugares onde passamos fica muito claro que os administradores públicos levam em consideração os peregrinos quando do planejamento e execução de obras públicas. Na construção de abrigos, na destinação de vias, na elaboração de desvios específicos quando a rota é interrompida por alguma obra, na sinalização, enfim.

Como ocorrera em todos os dias de nossa estada no caminho, ultrapassávamos e eramos ultrapassados por peregrinos, várias vezes os mesmos no mesmo dia. Quando dávamos ao caminhar um ritmo mais acelerado íamos ultrapassando alguns peregrinos. Quando parávamos ou caminhávamos mais devagar éramos ultrapassados, algumas vezes por aqueles que recém tínhamos ultrapassado. Isso era uma constante durante todo o trajeto.

A primeira vila por que passamos foi Calzadilla de la Cueza , depois de 17 km de caminhada. Paramos para um café. Nos bares da Espanha, ao se solicitar café, se não pedir um "café americano" eles servem um expresso extremamente forte e com pouca quantidade (um dedo no fundo da xícara), mal dá um gole. Nesse bar nos atendeu um brasileiro natural de Guarulhos/SP.

Continuamos a caminhada numa estrada que cortava raras plantações de girassóis ou milho e outras com muitos rolos de feno.

Depois de uma rápida passagem por Lédigos e mais alguns quilômetros, chegamos a Terradillos de los Templários onde nos hospedamos no Albergue Jacques de Molay onde dormimos em camas agrupadas muito próximas umas das outras.

19º dia - 14/09/2.011 [Quarta]  - 

Wrangel

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Wrangel
RussiaVrangelya.png
localización da illa
Siberia WR.png
Situación
País Rusia Rusia
Óblast Chukotka
Mar Mar de Chukchi, Mar de Siberia Oriental, Océano Ártico
Coordenadas 71°13′N 179°24′O / 71.217, -179.400
Xeografía
Xeoloxía illa continental
Superficie 7.608 km²
Longura máxima 150 km.
Largura máxima 125 km.
Punto máis alto 1.096 Monte Sovetskaya
Demografía
Poboación Deshabitada

A illa de Wrangel (en ruso:Остров Врангеля; Ostrov Vrangelya Tamén se atopa transliterado ás veces como Ostrov Vrangl'a.) é unha illa do Ártico, localizada entre o mar de Chukchi e o mar de Siberia Oriental, no meridiano 180º, a 140 km da costa de Siberia, da que a separa o estreito de Long. Cunha lonxitude de 150 km e 125 km, na súa maior anchura, ten unha superficie de 7.608 km².

Administrativamente, pertence ao distrito autónomo de Chukotka da Federación de Rusia.

No ano 2004 a illa de Wrangel foi inscrita como integrante do Patrimonio da Humanidade da UNESCO.

A illa leva o nome do barón Ferdinand von Wrangel (1797-1870), que emprendeu en 1.820 unha viaxe de investigación á illa tras observar os voos de partida das aves do Norte e interrogou á poboación nativa tchouktche. Nunca atopou a illa, pero leva o nome na súa honra.

Índice

  • 1 Xeografía
  • 2 Ecosistema
  • 3 Clima
  • 4 Historia
    • 4.1 Prehistoria
    • 4.2 Primeiras noticias
    • 4.3 Expedicións británicas e americanas
    • 4.4 Expedición Hidrográfica ao Océano Ártico
    • 4.5 Sobreviventes da Expedición Stefansson
    • 4.6 O fracaso da segunda Expedición de Stefansson (1921)
    • 4.7 Dominio soviético
  • 5 Véxase tamén
    • 5.1 Ligazóns externas

Xeografía[editar | editar a fonte]

A illa está cuberta, na súa parte central e meridional, por dous macizos montañosos erosionados, de orientación leste-oeste. O punto máis alto da illa, o monte Sovetskaïa (1.093 m), está situado ao sur da illa. As montañas do centro están percorridas por numerosos vales protexidos, que se benefician dunhas condicións meteorolóxicas comparativamente máis leves durante o breve verán ártico. A metade norte da illa consiste en grandes chairas baixas, salpicadas de numerosos lagos e ríos (5 deles con máis de 50 km de longo). As chairas de tundra menos extensa cobren a costa sueste. As costas son variadas, con altos cantís, lagoas costeiras, humidais e praias de area, rochas ou croios.

Ecosistema[editar | editar a fonte]

Paisaxe de tundra da illa de Wrangel

O Sistema natural da Reserva da illa de Wrangel, inscrito no Patrimonio da Humanidade da UNESCO en 2004, inclúe a illa de Wrangel, a illa Herald, un illote rochoso situado a 60 km ao leste da illa de Wrangel, e unha zona marítima de 12 millas mariñas ao redor de cada illa, cun total da unidade 19.163 km².

A Reserva da illa de Wrangel é un ecosistema insular autónomo. É evidente que sufriu un longo proceso evolutivo sen interrupción pola glaciación que cubriu a maior parte do Ártico durante o Cuaternario. O número e tipo de plantas endémicas, a diversidade de comunidades vexetais, a rápida sucesión e os mosaicos de tipos de tundra, a presenza de caveiras e cranios relativamente recentes de mamuts, a variedade de tipos de terreos e formacións xeolóxicas nun pequeno espazo xeográfico son todos testemuñas da rica historia natural de Wrangel e o seu lugar único na evolución do Ártico. Ademais, o proceso continúa como se pode observar, por exemplo, coas densidades excepcionalmente altas e os comportamentos particulares de poboacións de lemmings de Wrangel en comparación con outras poboacións no Ártico ou adaptacións físicas dos renos de Wrangel, que agora poderían ser parte dunha poboación distinta da do continente. As estratexias de interacción entre especies están moi desenvolvidas e son visibles en toda a illa, especialmente preto dos niños bufos nivales, que actúan como protectorado doutras especies e balizas para as especies migratorias, ao redor dos tobos de raposos.

A Reserva da illa de Wrangel ten o máis alto nivel de biodiversidade no alto Ártico. A illa é unha zona de aniñación para a única poboación asiática de ganso nival, que aos poucos está recuperándose duns niveis sumamente baixos. O medio mariño é un sitio de alimentación cada vez máis importante para a balea gris, que migra desde México (algunhas procedentes doutro lugar Patrimonio Mundial, o santuario de baleas de Vizcaíno, en México). As illas son o fogar das maiores colonias de aves mariñas do mar de Chukchi e son os sitios de aniñación máis setentrionais de máis de 100 especies de aves migratorias, incluíndo varias en perigo como o falcón peregrino. Eles teñen importantes poboacións de especies de paxaros residentes na tundra, mesturadas con especies migratorias do Ártico e outros lugares, e teñen a maior densidade de goridas ancestrais do oso polar. A illa de Wrangel conta coa maior poboación de morsas do Pacífico, con preto de 100.000 exemplares que se congregan en calquera tempo, nunha das grandes colonias costeiras da illa. Dado que a illa de Wrangel ten unha alta diversidade de hábitats e climas e que as condicións varían considerablemente dun lugar a outro, practicamente nunca houbo unha desaparición total da reprodución dunha especie, o que dado o tamaño relativamente pequeno da rexión é extremadamente inusual no alto Ártico.

Clima[editar | editar a fonte]

A illa de Wrangel goza dun clima de tipo polar. Os invernos son moi fríos e os veráns son moi frescos. En febreiro, o mes máis frío, a temperatura media diaria aproxímase a -25 °C. En xullo, o mes máis caloroso, a temperatura media diaria supera lixeiramente os 0 °C. As augas frías do océano Ártico desempeñan un papel moderador e axudan a manter baixas temperaturas ao longo do ano. A precipitación é baixa e teñen lugar principalmente no verán. A neve non cobre o chan máis que uns 79 días por ano de media. O vento sopra con forza a maior parte do ano (media anual de velocidade do vento: 5 m/s). A néboa é frecuente.

  • Temperatura máis fría rexistrada: -57,7 °C (decembro de 1926)
  • Temperatura máis quente rexistrada: 18,2 °C (xullo de 1927)
  • Media de número de días con neve nos anos: 158
  • Media de número de días chuviosos durante o ano: 57
  • Media de número de días con tormenta no ano: 0
  • Media de número de días con nevasca no ano: 71
  • Media de número de días con néboa no ano: 69

Historia[editar | editar a fonte]

Sistema natural da reserva da illa de Wrangel
Wrangel-island-sat.jpg
Vista da illa
Patrimonio da Humanidade - UNESCO
País Rusia Rusia
Localización Illa Wrangel, Óblast de Chukotka
Tipo Natural
Criterios ix, x
Inscrición 2004 (XXVIII sesión)
Rexión da UNESCO Europa e América do Norte
Identificador 1023
Fotografía en cor verdadeira MODIS de illa Wrangel (2001)

A principios de 1820, o explorador ruso Ferdinand von Wrangel intentou en balde atopar a illa. Foi descuberta en 1867 polo baleeiro americano Thomas Long, que a nomeou en honra de Wrangel. Unha expedición rusa foi enviado á illa en 1911, e a illa foi reclamada por Rusia en 1916. O explorador canadense de orixe islandés Vilhjalmur Stefansson enviou un equipo de colonos á illa en 1921, coa intención de reclamar a illa para Canadá, pero salvo unha dos membros, todos os integrantes do equipo pereceron. En 1924, un buque soviético expulsou pola forza a unha pequena colonia de Inuit establecidos alí polos EE.UU. en 1923. En 1926, a URSS estableceu unha colonia permanente na illa, onde hoxe en día hai unha estación comercial e meteorolóxica (Ouchakovskoïe).

Prehistoria[editar | editar a fonte]

Descubríronse probas dunha ocupación humana prehistórica en 1975, no sitio coñecido como Chertov Ovrag, onde se atoparon varias ferramentas de pedra e marfil, incluíndo un arpón. A datación por radiocarbono puxo de manifesto que a ocupación humana coincidiu aproximadamente cos últimos mamuts da illa, ao redor do 1.700 a.C., aínda que non se atoparon probas directas da caza de mamuts.

Unha lenda frecuente entre os chukchi siberianos conta que un xefe Krachai ou Krahay fuxiu co seu pobo (os krachaianos ou krahays) a través do xeo para asentarse nas terras do norte. Aínda que a historia é mítica, deuse crédito á existencia dunha illa ou continente cara ao norte pola migración anual de renos a través do xeo, así como pola aparición de puntas de lanza de lousa lavada nas costas do Ártico, feitas dun xeito descoñecido polos chukchi.

Primeiras noticias[editar | editar a fonte]

En 1764 o sarxento cosaco Andrejew afirmou avistar a illa, chamándoa "terra Tikegen" e atopou probas dos seus habitantes, os Krahay. A illa leva o nome do barón Ferdinand von Wrangel (1797-1870), que, logo de ler o informe de Andrejew e de escoitar as historias que contaban os chukchi de terras e illas, e tras observar a dirección que tomaban as bandas de aves, realizou unha expedición (1820-24) para descubrir a illa, aínda que non logrou ter éxito.

Expedicións británicas e americanas[editar | editar a fonte]

En 1849, Henry Kellett, capitán do HMS Herald, puxo pé e nomeou a illa de Herald, e dixo ver outra illa ao oeste; posteriormente, foi indicada nas cartas do Almirantado británico como «Terra de Kellett».

En agosto de 1867, Thomas Long, un capitán baleeiro americano, «achegouse a ela a unhas quince millas. chamei a esta terra do norte Terra Wrangell [sic]... como un tributo apropiado á memoria dun home que pasou tres anos consecutivos ao norte do paralelo 68°, e demostrou a cuestión deste mar polar aberto hai corenta e cinco anos, aínda que outros, moito máis tarde trataron de reclamar o mérito dese descubrimento».

George W. DeLong, comandante do USS Jeanette, conduciu unha expedición en 1879 tratando de chegar ao Polo Norte, esperando ir polo «lado oriental da terra Kellett», que ao seu xuízo estendíase moito no Ártico. O seu barco quedou atrapado na banquisa (no xeo movible) e seguiu á deriva cara ao leste, á vista de Wrangel, antes de ser esmagado e afundido. Os primeiros que puxeron pé na illa de Wrangel, o 12 de agosto de 1881, foron os membros dunha partida do USRC Thomas Corwin, que reclamaron a illa para os Estados Unidos.

A expedición, baixo o mando de Calvin L. Hooper, foi á procura da Jeannette e de dous baleeiros desaparecidos, ademais de realizar unha campaña de recoñecemento xeral. Incluía ao naturalista John Muir, que publicou a primeira descrición da illa de Wrangel.

Expedición Hidrográfica ao Océano Ártico[editar | editar a fonte]

En 1911, unha expedición científica rusa, a Expedición Hidrográfica ao Océano Ártico, dirixida por Boris Vilkitsky cos quebraxeos Vaygach e Taymyr, fixo terra na illa.

Sobreviventes da Expedición Stefansson[editar | editar a fonte]

En 1914, os sobreviventes da mal equipada Expedición Ártica canadense, organizada por Vilhjalmur Stefansson, foron abandonados alí durante nove meses despois de que o seu buque, o Karluk, fose esmagado nos xeos. Os sobreviventes foron rescatados polo pesqueiro motorizado King & Winge, despois de que o capitán Robert Bartlett cruzase a pé o mar de Chukchi ata Siberia para pedir axuda.

O fracaso da segunda Expedición de Stefansson (1921)[editar | editar a fonte]

En 1921 a illa de Wrangel converteríase no escenario dunha das traxedias da historia ártica cando Stefansson enviou cinco colonos (un canadense, tres estadounidenses, e un inuit) nun intento especulativo para reclamar a soberanía da illa para Canadá. Os exploradores foron seleccionados por Stefansson sobre a base da súa anterior experiencia e credenciais académicas. Steffanson considerou que tiñan coñecementos avanzados en xeografía e ciencia suficientes para esta expedición. O primeiro grupo estaba integrado polo canadense Allan Crawford, e os norteamericanos Fred Maurer, Lorne Knight e Milton Galle. En 1923, o único sobrevivente desta expedición, a muller inuit Ada Blackjack, foi rescatada por un barco que deixou outro grupo de 13 (o americano Charles Wells e outros 12 inuits). En 1924, a Unión Soviética desaloxou aos membros deste asentamento e estableceu o asentamento que sobrevive ata o día de hoxe na illa.

Dominio soviético[editar | editar a fonte]

En 1926, un equipo de exploradores soviéticos, equipado con tres anos de subministracións, desembarcou na illa de Wrangel. As augas estaban libres de xeo, o que facilitou a súa chegada en 1926, pero os seguintes anos a illa permaneceu bloqueada. Os intentos de chegar á illa por mar foron infrutuosos e temíase que o equipo non sobreviviría ao seu cuarto inverno.

En 1929, o quebraxeos Fyodor Litke foi elixido para unha operación de rescate. Navegou a partir de Sebastopol co capitán Konstantin Dublitsky ao mando, chegando a Vladivostok o 4 de xullo de 1929; aí todos os mariñeiros do mar Negro foron relevados e substituídos por persoal local. Dez días máis tarde, o Fyodor Litke navegou cara ao Norte, pasando sen complicacións o estreito de Bering, pondo rumbo cara ao estreito de Long para intentar achegarse á illa desde o sur. O 8 de agosto un voo de recoñecemento informou de que o xeo no estreito era infranqueable, e o Fyodor Litke dirixiuse ao norte, en dirección á illa Herald. Non puido escapar ao xeo: o 12 de agosto o capitán apagou os motores para aforrar carbón e tivo que esperar dúas semanas ata que o xeo aliviou a presión. Facendo uns poucos centos de metros ao día, o Fyodor Litke alcanzou o asentamento o 28 de agosto. O 5 de setembro emprenderon o regreso con todos os exploradores a salvo. Esta operación supúxolle ao Fyodor Litke a orde da Bandeira Vermella do Traballo (20 de xaneiro de 1930), así como placas conmemorativas para a tripulación.

Na década de 1930, a illa de Wrangel converteuse no escenario dunha estraña historia, cando caeu baixo a cada vez máis arbitraria autoridade de Konstantin Semenchuk, designado o seu gobernador, que controlaba a poboación local e o seu propio persoal, por medio da extorsión e o asasinato. Prohibiu aos nativos cazar morsas, o que os puxo en perigo de inanición. Posteriormente, foi implicado na misteriosa morte dalgúns dos seus opositores, incluído o médico local. O posterior xuízo en Moscova en xuño de 1936 condenou á morte Semenchuk acusado de "bandidaxe" e da violación da lei soviética.

Durante e logo da II Guerra Mundial moitos prisioneiros de guerra alemáns da SS Schutzstaffel e membros do Exército Ruso de Liberación de Andrey Vlasov foron encarcerados e morreron na illa de Wrangel. Un preso que máis tarde emigrou a Israel, Efim Moshinsky, afirma ver a Raoul Wallenberg alí en 1962.

Segundo algúns norteamericanos, oito illas árticas actualmente controladas por Rusia, incluída a illa de Wrangel, son reclamadas polos Estados Unidos. Con todo, segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidosa devandita reclamación non existe.

Véxase tamén[editar | editar a fonte]

Ligazóns externas[editar | editar a fonte]

  • UNESCO Ligazón á páxina da illa de Wrangel Patrimonio da Humanidade.
  • Biodiversité de l'île Wrangel.
  • The Ice Master Traballos de non ficción de Jennifer Niven na illa Wrangel.
  • Adventure Associates Viaxe en quebraxeos á illa Wrangel.
  • Run For Wrangel Turismo.
  • Isolation, Desolation and Tragedy Perspectiva histórica por Roderick Eime.
  • Radiocarbon Dating Evidence for Mammoths on Wrangel Island.
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